Artigo de Lilia Carreiro 

Psicóloga e especialista em Psicanálise e Saúde Mental. Tem experiência na gestão e assistência de unidades públicas de saúde e atende crianças, adolescentes e adultos. 

 

No tratamento infantil o brincar assume uma função de método terapêutico, onde o analista poderá acessar a criança através das brincadeiras e jogos lúdicos que pertencem ao universo da criança. A psicoterapia com crianças e adolescentes é mais comum do que se imagina. Cada vez mais os estudos clínicos apontam para a relevância da intervenção precoce, isso significa iniciar um tratamento logo que se manifesta algum sinal de risco psíquico e ao desenvolvimento.

É fundamental que, na medida em que os pais ou responsáveis percebam ou sejam alertados por terceiros sobre traços incompatíveis com as características de desenvolvimento da criança ou adolescente, como mudanças importantes de comportamento, no sono, atenção, humor, rendimento escolar, cuidados pessoais, gagueira, sexualidade excessiva, agressividade, isolamento, compulsão alimentar, entre outros, procure a avaliação de um profissional. Tais sinais podem ser respostas transitórias às vivências individuais como podem indicar algum mal-estar, o início de um transtorno psíquico. 

 Principais dúvidas dos pais que chegam através de e-mail ou em entrevistas nas primeiras consultas:

1. “Se meu filho apresentar agressividade devo procurar tratamento psicológico?” Qualquer alteração brusca ou severa merece atenção. Os pais devem estar atentos na duração da manifestação, a quem se dirige, o que a criança diz e os espaços em que tal comportamento aparece e em que meio social. Se o comportamento se mantém é importante articular com o pediatra, escola e buscar avaliação psicológica.

2. “Meu filho sempre frequentou bem a escola, mas nas últimas semanas tem pedido para não ir, chegando a chorar. Devo trocá-lo de escola?” É preciso ser cauteloso. Observar se em outros contextos a criança tem apresentado comportamentos diferentes. Importante se dirigir à escola, informar o que tem observado e ouvir como tem sido o período escolar. A partir daí, deve-se procurar ajuda profissional para avaliar amplamente.

3. “Meu filho de 3 anos tem dificuldade de ir para a creche, mas chegando lá a professora conta que ele fica bem, brinca e não chora. Quando eu chego pra buscá-lo, ele chora e corre para o meu colo. Fico preocupada e ansiosa  ao deixá-lo por tantas horas lá. Acho que preciso de uma terapia para não prejudicar meu filho.” É importante não se culpar e procurar ajuda para elaborar esse momento de separação.

4. “Meu filho faz terapia. Eu e meu marido também precisamos fazer?” Não necessariamente. É importante participar das orientações aos pais, tirar dúvidas, falar das preocupações e trabalhar a relação com a criança. Caso haja indicação de psicoterapia individual dos pais, será sugerido o acompanhamento e acontecerá com outro profissional.

5. “Meu filho não gosta de brincar com outras crianças, nem com a irmã. Ele tem 2 anos e meio. Ele fala quando quer pedir alguma coisa, mas não costuma sorrir nem olhar nos nossos olhos. Tive gestação normal, ele sentou, andou e falou no mesmo período que a irmã, no tempo esperado. Tenho lido sobre autismo, tenho dúvidas do que acontece com meu filho.” Os diagnósticos servem de orientação para o tratamento, não devem servir para classificar alguém, especialmente uma criança. É muito importante toda observação acerca da criança. Entretanto, quanto mais precoce aparecem sinais psíquicos, deve-se conversar com o pediatra, buscar orientação e buscar uma avaliação multiprofissional. Desse modo, uma equipe ou um profissional poderá acompanhar a evolução dessas características a partir da intervenção precoce.

6. “Tenho uma única filha com 5 anos e ela presenciou uma grande discussão minha com a mãe dela. Desde então, ela não fica mais sozinha comigo, tem tido sono atrapalhado, dorme por pouco tempo e acorda chorando. Não sei como fazer, eu e a mãe dela não sabemos se vamos nos separar e não queremos que ela saiba de nada. Como eu me aproximo dela?” Ela sabe que tem algo acontecendo e está reagindo. Ela pode não entender exatamente o que estão vivenciando, mas percebe um mal-estar. Com cuidado, guardando o lugar dela de criança, vocês podem conversar com ela. Pode ser que, por estarem mais fragilizados com a questão entre o casal, precisem de ajuda profissional para isso.

7. “Existe idade mínima pra uma criança fazer terapia?” Não. Inclusive não é necessário que a criança fale para que possa iniciar um tratamento psicológico. Embora sejam muito valorizadas as palavras, toda a manifestação do sujeito é tomada em tratamento. Alguns casos podem exigir intervenção já nos primeiros meses de vida. As propostas e recursos terapêuticos é que se diferenciam. Privilegia-se o olhar sobre a singularidade de cada sujeito, seja ele falante ou não.

 

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